Ministro diverge e vota a favor de lei sobre aulas de gênero
Ministro de corte superior abriu divergência em julgamento e votou pela validade de lei estadual capixaba que permite a pais e responsáveis vetar a participação de filhos em atividades pedagógicas sobre gênero, contrariando o entendimento da relatora pela inconstitucionalidade da norma.
Plenário virtual analisa lei estadual capixaba
O exame da constitucionalidade da Lei nº 12.479/2025, do Espírito Santo, ocupa atualmente a pauta do plenário virtual da corte superior responsável pelo controle abstrato de constitucionalidade. A previsão de encerramento do julgamento é a próxima segunda-feira, dia onze, e o resultado dependerá da composição final dos votos depositados ao longo da janela eletrônica.
A norma questionada, popularmente associada ao debate sobre aulas de gênero, confere a pais e responsáveis legais o direito de impedir a participação de seus filhos ou tutelados em atividades pedagógicas que tratem de identidade de gênero, orientação sexual, diversidade sexual e temas correlatos, tanto na rede pública quanto na rede privada de ensino do estado. A regra atinge, portanto, todo o ciclo escolar abrangido pela educação básica.
Origem do questionamento na via abstrata
A ação direta de inconstitucionalidade foi proposta por entidades associativas voltadas à defesa de direitos de minorias sexuais e de gênero. Na petição inicial, as autoras sustentaram que o estado-membro teria invadido competência privativa da União para legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional, além de violar princípios constitucionais como liberdade de expressão, igualdade material e direito de acesso ao conteúdo educacional integral.
Relatora considera inconstitucional a regra estadual
O voto inaugural foi proferido pela ministra relatora, que se posicionou pela procedência integral do pedido de inconstitucionalidade. Em sua fundamentação, a magistrada concluiu que a norma estadual interferiu de forma indevida no currículo escolar, matéria reservada à União nos limites da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Para a relatora, ao criar mecanismo de exclusão pontual de estudantes em relação a determinados temas, o estado-membro extrapolou sua margem de competência legislativa concorrente e introduziu regra incompatível com as diretrizes nacionais aplicáveis ao ensino formal. Esse desencaixe normativo seria suficiente, por si só, para o reconhecimento do vício formal de inconstitucionalidade.
Princípios constitucionais invocados pela relatoria
Além do argumento federativo, o voto da relatoria identificou afronta a princípios constitucionais materiais. A magistrada destacou que a regra atinge a igualdade entre estudantes, a dignidade da pessoa humana e a liberdade de expressão, na medida em que cria restrição direta ao acesso de parte do alunado a conteúdos pedagógicos formalmente integrados ao currículo escolar.
Esse núcleo de fundamentação remete à interpretação consolidada de que a educação pública e privada deve assegurar formação plural, com exposição a temas relevantes para a vida em sociedade. Restrições baseadas em escolha individual dos responsáveis, sob essa ótica, podem fragilizar o caráter universal do direito à educação e gerar tratamento desigual entre estudantes da mesma rede de ensino.
Voto divergente sustenta competência estadual e proteção à infância
Em manifestação de divergência, o ministro que abriu posição contrária à relatoria afirmou que a lei estadual não trata de diretrizes pedagógicas, mas sim de medidas voltadas à proteção da infância e da adolescência. Segundo essa linha argumentativa, a norma não regula conteúdo programático, metodologia de ensino, formação docente ou modo de exercício da atividade educacional.
A NORMA NÃO REGULA CURRÍCULO, CONTEÚDO PROGRAMÁTICO, METODOLOGIA DE ENSINO NEM MODO DE EXERCÍCIO DA ATIVIDADE DOCENTE
O magistrado ressaltou que o texto questionado não impede a abordagem dos temas em sala de aula nem em escolas particulares. A regra, em sua leitura, apenas permite que pais e responsáveis decidam pela retirada pontual de seus filhos da participação em atividades específicas relacionadas a determinados conteúdos. A estrutura curricular, portanto, permaneceria preservada para o restante da turma.
Afastamento da alegação de censura ou cerceamento
Ainda no voto divergente, o ministro afastou a tese de que a norma estadual configuraria censura ou ofensa à liberdade de cátedra. A leitura adotada considera que a previsão legislativa não impõe veto à exposição de conteúdos por professores nem cria proibição genérica de determinado tema no ambiente escolar, limitando-se a abrir possibilidade de retirada individual mediante manifestação familiar.
Sob essa ótica, o exercício docente continuaria preservado, e o conteúdo permaneceria disponível para a fração de estudantes cujos responsáveis optem pela permanência em aula. Essa diferenciação entre regulação ampla do currículo e mecanismo de retirada pontual foi central para a articulação da divergência aberta.
Discussão sobre competência legislativa concorrente
Outro eixo do voto divergente envolveu a leitura da repartição de competências entre União, estados e municípios em matéria educacional. Para o ministro, é admissível que estados-membros editem normas mais protetivas em favor da infância e da juventude, desde que não conflitem com diretrizes nacionais já consolidadas e respeitem os limites materiais da Constituição Federal.
A partir desse pressuposto, o magistrado concluiu não haver óbice constitucional para que o estado capixaba institua critérios de proteção adicional, especialmente quando a regra dialoga com o exercício do poder familiar e com a participação dos responsáveis legais no acompanhamento do processo educacional dos filhos. Em sua avaliação, a norma estadual estaria compreendida nesse espaço normativo legítimo.
Acompanhamento familiar como elemento da formação escolar
O voto divergente também sublinhou a importância da participação dos responsáveis no processo educacional como vetor de formação integral do estudante. Para o ministro, entendimento contrário poderia contribuir para um afastamento progressivo das famílias em relação à formação escolar dos filhos, em prejuízo da articulação entre ambiente doméstico e ambiente educacional.
A linha argumentativa adotada na divergência aproxima a discussão da temática do exercício da autoridade parental, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código Civil. Esses diplomas atribuem aos responsáveis deveres de cuidado, orientação moral e acompanhamento do desenvolvimento do menor, balizas frequentemente invocadas em controvérsias que envolvem participação familiar em decisões escolares.
Próximos passos do julgamento
O julgamento permanece aberto no plenário virtual, com expectativa de novos votos até o encerramento da sessão eletrônica prevista para o início da próxima semana. O resultado será definido pela maioria formada entre os ministros componentes da corte, e a tese vencedora pode produzir efeitos práticos relevantes sobre normas estaduais de teor similar atualmente vigentes em outras unidades da federação.
Caso prevaleça o voto da relatoria, a lei capixaba será declarada inconstitucional, com efeitos vinculantes e eficácia erga omnes, alcançando inclusive outros entes federativos. Já a confirmação da divergência abre caminho para a manutenção da norma estadual, com possível repercussão sobre debates legislativos em curso em diferentes câmaras estaduais sobre temas educacionais sensíveis.
Independentemente do desfecho, o julgamento consolida orientação interpretativa sobre os limites da competência legislativa concorrente em matéria educacional, especialmente quando a discussão envolve conteúdos curriculares socialmente sensíveis e pleitos formulados por entidades de defesa de direitos fundamentais.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui orientação jurídica individualizada. Para análise do seu caso, consulte um advogado em cassiusmarques.adv.br.
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